6 de fevereiro de 2015

#Desafio Um Ano de Contos: Janeiro - Temática Livre

Ainda não saiu o resultado oficial para os contos desse mês, então ainda não sei o que os juízes da competição acharam. Mas, como já podemos postar (na verdade, desde o dia 30/01) os contos em nossos blogs, publico essa história para a apreciação de quem passar por aqui. Se possível, deixe seu comentário. Diga o que gostou e o que não gostou. Se sincera e construtiva, toda crítica é bem vinda.


O Primeiro Contador de Histórias

Quando a raça humana ainda era jovem, era ruim fazer perguntas. As perguntas tiravam a atenção dos caçadores da coisa mais importante: conseguir comida. Pelo menos essa era a única resposta que Kalum encontrara fazendo suas perguntas.

Quando perguntou para que o olho servia, lhe disseram que era para ver e seguir o rastro da caça. Quando quis saber dos ouvidos, disseram que era para ouvir quando outro animal espreitava, caçando os caçadores. Quando ficou curioso sobre o nariz, falaram que servia para sentir o cheiro da carne assando sobre o fogo. E quando questionou o porquê da língua, responderam que servia para sentir o gosto da carne e lamber a gordura que escorria da boca.

Mesmo sendo tão curioso, quando chegou à idade certa, Kalum foi aceito pelos caçadores. Eles já haviam aprendido que gente como Kalum era muito útil. Se um tigre dentes-de-sabre os atacasse durante a caçada, o curioso acabava ficando para trás, pensando nas perguntas. Ele virava comida de tigre e os verdadeiros caçadores escapavam.

Claro que isso não quer dizer que eles gostassem de Kalum e suas perguntas. Até porque elas estavam ficando cada vez mais complicadas com o passar do tempo.

Um dia, enquanto caçavam, Kalum pegou duas pedrinhas, uma em cada mão. Então seguiu caminhando com o grupo, girando as pedras entre os dedos. E logo veio a pergunta:

- Pra que serve a mão sentir o que é pontudo e o que não é? 

Como já estavam acostumados a fazer, os caçadores o ignoraram. Kalum, como sempre, ficou olhando de um para outro, na esperança de ter uma resposta. Então algo espetou sua nádega. Era Ascot, que o cutucava com a lança enquanto respondia:

- Para você saber o que pode te furar a carne e te matar. Agora fica quieto!

Com uma careta de dor, Kalum esfregou a mão onde a lança o havia machucado. Decidiu que era mais seguro ficar quieto mesmo.

Mas calar a boca não calava suas dúvidas. Quando os caçadores avançaram contra os antílopes e ele ficou cobrindo a retaguarda, se questionou porque ninguém nunca tinha as respostas para o que perguntava. Vendo os caçadores abaterem a presa, ele pensou que, se aqueles eram os melhores da tribo, e eles não tinham respostas, quem poderia ter?